Não gosto de trazer para o blog os assuntos dos media sensacionalistas.

Por vezes, dou algumas opiniões na página do Facebook, mas costumo ficar por aí. Acontece que anda tudo exaltado, e apetece-me partilhar a minha humilde opinião sobre dois dos assuntos que andam na berra: o referendo da co-adopção de crianças por casais homossexuais e a questão das praxes académicas.

Sem querer misturar os dois assuntos, avancemos com este dois-em-um.

Antes de mais, deixem-me que vos diga que andamos a perder tempo com assuntos de caricacá. No Portugal do Fado, de Fátima e do Futebol, é assim que acontece. Enquanto os senhores que nos governam planeiam a nossa forca, nós discutimos o sexo dos anjos. É assim com quase tudo, foi assim com o Eusébio e a história do Panteão Nacional, e como essa história já estava saturada e não vendia jornais e revistas, tivemos de encontrar uma nova ocupação.

Quem vê as notícias actuais, dirá que Portugal saiu da crise e está cheio de dinheiro.

A sério! Ninguém consulta os portugueses para as questões realmente importantes. Ninguém quer saber de referendos quando é para tramar as nossas finanças e encher-nos de mais impostos e taxas, até porque não há dinheiro para referendos. Para transladar mortos e opinar sobre a vida e os direitos dos outros, prosperamos.

É ridículo que, neste momento da História, ainda haja cidadãos de segunda. Por que carga de água é que um adulto que deseje adoptar uma criança há-de ser impedido do seu propósito, seja ele solteiro, casado, hetero ou homossexual? Para além de as mentalidades terem de mudar, as burocracias também precisam de uma grande lavagem. As crianças precisam de uma família que lhes dê amor. Seja ela de sangue, ou não. Seja ela monoparental, ou não. Tenham as crianças um pai e uma mãe, dois pais, ou duas mães. As crianças precisam de estabilidade. Viver numa instituição ou em ambientes de negligência não é, de todo, algo desejável para uma criança.

E arrumem a porcaria dos preconceitos.

Porque uma criança que tenha dois pais ou duas mães vai ser gozada na escola.

Tretas! É da nossa competência ensinar às crianças que não se goza com os outros.

Porque uma criança precisa do exemplo do pai e da mãe para perceber o papel dos géneros e para desabafar.

Tenho muitos amigos que cresceram só com um dos progenitores, ou mesmo sem eles (com tios, avós e por aí fora) e não são maluquinhos da cabeça nem têm problemas de identidade.

Porque com pais homossexuais as crianças também serão homossexuais.

E eu que ia jurar que todas as pessoas homossexuais são filhas de relacionamentos entre um homem e uma mulher! Deve andar por aí à solta toda uma nova espécie de indivíduos que surgiram de fenómenos de geração espontânea.

Porque somos religiosos e não é natural, está na Bíblia!

Talvez devessem ler o Levítico e rever esse argumento nojento. E, de caminho, lembrem-se que Jesus Cristo teve dois pais! É esperar para ver no que é que esta palhaçada da co-adopção e do referendo vai dar.

Passando à história das praxes, parece que só agora é que se lembraram deste temível assunto.

Sou anti-praxe. Talvez partilhasse de uma opinião diferente se na minha faculdade as praxes fossem uma espécie de fase de acolhimento e confraternização, sem rituais humilhantes. Afinal, é este um dos principais argumentos que os praxantes dão aos caloiros: que as praxes servem para os novos alunos se integrarem e fazerem amigos para a vida. Dizem-nos que, se não formos às praxes, não conheceremos ninguém e teremos muita dificuldade em encontrar material de estudo elaborado pelos alunos mais antigos.

Quando entrei para a faculdade, não foi preciso muito tempo na fila de espera para me matricular para perceber que as praxes ali eram o que eu abominava. Chamavam nomes aos novos alunos, sujavam-nos, gritavam com eles, faziam-nos olhar para o chão, entre outras coisas. Vejo alunos de algumas faculdades a cantarem palavras censuráveis nos transportes públicos, e outros a pedirem esmolas em estações de metro.

Não sei onde é que esta panóplia de rituais é integradora e não humilhante. Fiz questão, de imediato, de me fazer ouvir junto da comissão de praxes e deixei registada a minha decisão de não me envolver em quaisquer praxes. Fui respeitada, apesar de tudo, e não tive quaisquer problemas de integração.

Contudo, penso que quem quer comparecer às praxes, deve fazê-lo, se é o que quer para si, e desde que não interfira com os outros. A minha liberdade termina onde começa a do próximo! Há muito sensacionalismo em torno da questão das praxes e muitas culpas mal atribuídas. Tão ladrão é quem rouba como quem fica à guarda, e creio que se quem é praxado se fizesse ouvir, quem praxa deixava de cometer muitas atrocidades e acabava-se o cruel argumento estou a fazer-te isto porque mo fizeram a mim.

Houve uma colega do meu curso, da minha faculdade, que partilhou a sua experiência no DN, e só serve para confirmar que as praxes são um exemplo do funcionamento da nossa sociedade no geral: preferimos procurar aprovação social em vez de nos destacarmos e certificarmos que a nossa opinião é ouvida e respeitada. Deixem-me que vos diga, algumas pessoas merecem a porcaria em que se metem…

11 comments on “Do Referendo e das Praxes”

  1. Subiste considerávelmente na minha consideração ao admitir “Sou anti-praxe”.
    Tambem sou. Odeio tudo o que humilhe o ser humano,é decadente, mesquinho e na cabeça saudavel de qualquer ser humano não tem nada de acolhedor nem de hospitaleiro como os “bubas” das capas negras querem fazer parecer. Meninos, que a maior parte deles têm idade para já ter concluido duas licenciaturas e mantêm se na vida académica pela paródia, noitadas e pela pseudo-liderança que ser veterano lhes dá.
    Quanto à adoção por casais do mesmo sexo, pois que adotem, desde que se prove, tal como nos casais hetero que têm estrutura emocional e económica para os sustentar.
    Infelizmente conheço várias pessoas com filhos adotivos e posso dizer te que metade não os trata como filhos de sangue, no inicio adoram ter o filho e depois arranjam defeitos e começam a associar tudo aos pais sanguineos. Embora seja prolongado o processo de adoção, existe uma falha que não foi ainda preenchida. Quanto a mim a preocupação é mais com estabilidade material que outra coisa.
    Enfim…

  2. Concordo plenamente contigo em tudo. A questão das praxes é apenas uma questão de as pessoas saberem dizer não! Eu estudei em Évora, fui praxada durante mais de um mês, e apesar de tudo foi mais de um mês bem divertido! O dia das matrículas foi horrível, um trauma, porque fui apanhada sozinha por estudantes que eram umas bestas, e chorei e disse que não aguentava aquilo. Mas o resto do tempo fui praxada maioritariamente por pessoas do meu curso, e claro que houve dias maus, estraguei e sujei roupa e o corpo, andei cansada, mas era quase sempre jogos e cantorias, e não andávamos a gritar asneiras na rua, mas quando não queria não ia, e se não queria fazer alguma coisa, dizia que não fazia e acabou-se. Tive alguma sorte com a turma que me praxou, porque já vi muita coisa absurda ser feita a caloiros, e não eram as praxes que deviam acabar, era a cabeça das pessoas que devia mudar, quem praxa e quem é praxado, ninguém é obrigado a nada!

  3. Concordo com tudo o que foi dito. Em relação à co-adopção e adopção, só me irrita ter de compartilhar o mundo/casa com quem tem uma mentalidade tão limitada…É que não adianta tentar mudar a mentalidade das pessoas, elas são contras só porque sim.

  4. Apoiadíssima, em tudo o que disseste! Não vejo necessidade de referendo sobre este tema, deveria ser naturalmente aceite esta hipótese, nem entendo quais são as dúvidas. Trabalho com crianças que vêm de famílias (de pais heterossexuais) completamente destruturadas, são torturadas, mal amadas, humilhadas, abusadas e outras “adas”. Como é que se pode sequer pensar que um casal, pelo único facto de ser homossexual, pode fazer estragos sequer comparados aos que estes miúdos vivem…

    Das praxes, estou chocada, confesso. Estudei na Lusófona, fui praxada. Não fui humilhada, fui até bem tratada, com um padrinho porreiro e, apesar de não ter adorado, até gostei. Isto não são praxes, isto é andar a brincar à Maçonaria e sociedades secretas, numa arrogância e sadismo incrível por um lado, e numa necessidade extrema de aceitação e aprovação dos outros, por outro lado.

    Nobre Sonho

  5. Concordo com a parte do referendo. Não temos dinheiro (ponto). E para além disso porque raio se vão questionar outras pessoas se acham ou não correto que dois homens ou duas mulheres possam adoptar crianças? Eu acho que todos somos iguais e todos temos os mesmos direitos… mas enfim!

    Já a parte das praxes não partilho da mesma opinião… sou contra os exageros que se vêm algumas vezes, mas na minha faculdade(ISCTE) nunca vi coisas assim. Os miúdos divertiam-se, nós divertíamos-nos e criávamos amizades. Grandes amigos que tenho conheci nas praxes, fui praxada e praxei com eles. Conhecíamos pessoas novas, fazíamos jogos engraçados, cantávamos músicas e todos se divertiam. Se não queriam ser praxados ou não queriam fazer isto ou aquilo, não faziam! E ninguém se chateava.
    Mas tenho noção que no ISCTE, onde o movimento M.A.T.A. foi criado, também tivéssemos outro tipo de cuidados. Sou contra exageros, o que mais me enerva é ver frustrados a gritar com as pessoas e fazer delas gato sapato… nunca fiz isso nem nunca apoiei se alguma vez o fizeram à minha frente. Mas também não acho que se devam proibir as praxes, mas sim pôr um travão a exageros, um limite e punir que o ultrapassar! **

  6. Bem venho fazer um bocado de advogado de acusação.
    Começo por dizer que não quero ofender ninguém nem tão pouco fazer de alguém alvo de preconceito. Entendo porque haja um referendo. Apesar de que pensamos ou gostamos de pensar que o nosso governo é laico e sem preconceito ainda grande parte do nosso país é ”católico”, portanto para não ferir susceptibilidades, tirar o peso de cima dos ombros do governo o possível desagrado de algumas minorias mais ferrenhas e provavelmente o referendo também será para que as próprias pessoas julguem e façam justiça á democracia em que vivemos. Quanto á capacidade de casais homossexuais terem ou não capacidade de criar alguma criança é subjectivo. Como referiste Guida, existem imensos casos de famílias monoparentais é certo e as crianças fruto de tais situações não são menos ou mais que outras, falo por experiência própria a minha mãe criou dois filhos sozinha, porem existe sempre uma lacuna. Por muito esforço que haja, mãe é mãe e pai é pai. Nenhum pode preencher o papel do outro até porque cada um tem responsabilidades diferentes. Um pode tentar preencher o lugar do outro mas sempre existirá diferenças por tanto não concordo com a adoção por parte de casais homossexuais. Compreendo quem o queira, respeito mas não concordo.
    Quanto á instabilidade das crianças, é verdade o quanto sofrem dentro de instituições, portanto num mundo melhor as crianças só seriam institucionalizadas depois de muitos recursos e não na primeira oportunidade que a segurança social tem. Nem vou falar das praxes senão ainda vou a forca com direito a arremessos de frutas e legumes LOl

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