Ontem descobri que as minhas primas de dez anos têm perfis no Facebook. Os pais têm conhecimento, é certo, mas mesmo assim não deixa de ser medonho. Ambas têm fotografias. Uma delas nem sequer deixa adicionar amigos, o que me deixa um nadinha mais aliviada. A outra, tem o mural à mercê de quem passa, pois nem sequer controla a visibilidade do que escreve.

Bem sei que as coisas mudam e que quando eu tinha a idade delas mal havia Internet. Tive o meu primeiro blogue aos doze anos. Nessa altura, ninguém pensava em redes sociais. Havia os chats, o mIRC ainda tinha algum peso e era por lá que se conversava. Mas numa época em que quase ninguém tinha câmaras digitais e os telemóveis só serviam para telefonar e mandar mensagens, não havia essa preocupação. Até porque o mais provável era utilizar um nickname hoje, outro amanhã e por aí fora.

Sou sincera, criança minha não teria autorização para criar um perfil na Internet tão cedo.

Em primeiro lugar, os miúdos são novos de mais para andarem agarrados a computadores. Nem sequer falando na saúde deles, acho que é desde cedo que se aprendem os valores importantes da vida. Como é possível esperar que tenham força de vontade e que sejam seres amigáveis se têm a liberdade de alapar em frente ao monitor? Acho que aos dez anos socializar significa algo mais do que passear pelo Facebook. No meu tempo, saltava-se à corda, andava-se de bicicleta, brincava-se. Também se jogava no Gameboy e na Playstation, mas enjoávamos de tudo isso muito depressa. Hoje em dia, joga-se no Farmville, Cityville e outros villes. Na minha escolinha, teríamos gosto por ter uma horta num canteiro algures. Já estes miúdos, ficam contentes por ter uma horta virtual. Pergunto-me se sabem que o leite vem da vaca e que os morangos não vêm das árvores.

Depois, há a questão da segurança. Não me venham dizer que os pais controlam, porque não acredito que algum pai tenha controlo total sobre os seus filhos durante todos os minutos do dia. Não me enganem, todos passámos por lá, todos sabemos o que a casa gasta. E os azares acontecem, muitas vezes porque damos abébias.

Se há coisas em que acredito que quanto mais cedo lidarmos com elas, melhor, esta não é uma delas. Sabem, vejo muitos adultos que deviam ser proibidos de estar em redes sociais pelas atitudes que têm. Não se apercebem de que qualquer pessoa pode ver o que escrevem e por vezes dizem as maiores barbaridades. Sim, temos liberdade de expressão. Mas também é verdade que a nossa liberdade termina onde começa a dos outros, e muita gente não se apercebe dos limites. Se é este o exemplo que as pessoas grandes dão, como esperam que os mais novos tenham bom senso? Nem falo dos falsos perfis de adultos mal intencionados. Falo de pessoas relativamente influentes, que sabem que há malta miúda a vê-las e que ainda assim jogam muitos palavrões para o ar, a par de afirmações grotescas (como pessoa tal que há tempos afirmava que quando as jovens se vestem de forma “provocatória” merecem o assédio de que sofrem por vezes). É que, a meu ver, grande parte da nossa formação humana vem dos exemplos que tivemos. Por vezes, não conseguimos distinguir o exemplo bom do exemplo mau.

Chamem-me forreta, mas a isto eu faço “não gosto”.

6 comments on “Facebook Kids”

  1. Estou de acordo contigo.
    Uma criança de 10 anos já estar nas redes sociais é uma coisa que pessoalmente me causa impressão.
    Criei o meu primeiro e-mail aos 13 anos na biblioteca da escola e acho que aos 10 anos nem sabia o que era a internet porque na altura era uma coisa só para pessoas muito ricas, não era como agora que qualquer um tem. Acho bem que todos possam ter acesso à net para que a usem correctamente.
    É que depois estas crianças começam a disputar quem tem mais amigos no facebook ou menos e começam a adicionar tudo o que lhes aparece à frente sem fazerem uma análise e uma triagem.
    Penso que deverias falar com os teus tios sobre a realidade no mundo da internet/redes sociais porque não devem saber o que anda por aí ou pelo menos dizer à tua prima que tem o perfil público para alterar as definições de privacidade.

    • Eu acedo desde os 5, não em minha casa (cá só tive Internet aos 13), e na altura era por mimo. Deixavam-me tirar uma ou duas imagens para brincar no paint ou para imprimir e colorir e já era muito, porque era muito caro. Pagava-se ao impulso telefónico e o servidores eram em Lisboa. Como estava no Alentejo, era um sarilho. Aos 8, 9, já acedia ao Casquides. Eles sabem como funciona, lembro-me aliás que o irmão de uma delas só pôde criar uma conta no msn e um blogue quando já tinha 13 anos, acho. Com certeza, vou dar nas orelhas da que tem tudo à mostra no mural.

      Beijinho

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